"Fico vivendo uma vida toda pra dentro, lendo, escrevendo, ouvindo música o tempo todo. Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida me enfia goela abaixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezada como um cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar café e continuar.
Ah, então foi pra ele que eu dei meu coração e tanto sofri: Amor é falta de QI, tenho cada vez mais certeza. Joguei sobre ele tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor. Difícil explicar. Muitas coisas duras por dentro...
Uma pressa, uma urgência. E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça, para que não me firam. E tomo a providência cuidadosa de eu mesma me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que ele me chamasse pelo telefone...
Às vezes a gente vai-se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é. Eu acho que a gente não deve perder a curiosidade pelas coisas: há muitos lugares para serem vistos, muitas pessoas para serem conhecidas... Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros. Quem diria que viver ia dar nisso? Mas sempre me pergunto por que, raios, a gente tem que partir? Voltar, depois, quase impossível. Loucura, eu penso, é sempre um extremo de lucidez. Um limite insuportável.
Fiquei tão só, aos poucos.
Ando meio fatigada de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis. Meu coração está ferido de amar errado. Tudo isso me perturba porque eu pensara até então que, de certa forma, toda minha evolução conduzira lentamente a uma espécie de não precisar de ninguém. Até então aceitara todas as ausências e dizia muitas vezes para os outros que me sentia um pouco como um álbum de retratos. Claro que você não tem culpa, caímos exatamente na mesma ratoeira: a única diferença é que você pode escapar e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que não umedece. Não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive. Mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar. Tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?
Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia! Preciso tanto, tanto, tanto - eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era...
Mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar... Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse ao meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que eu tinha, era seu.
Os homens precisam da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta. Só quero ir indo junto com as coisas, ir sendo junto com elas, ao mesmo tempo, até um lugar que não sei onde fica, e que você até pode chamar de morte, mas eu chamo apenas de porto. Por favor, não me empurre de volta ao sem volta de mim, há muito tempo estava acostumada a apenas consumir pessoas como se consomem cigarros, a gente fuma, esmaga a ponta no cinzeiro, depois vira na privada, puxa a descarga, pronto, acabou.
Desculpe, mas foi só mais um engano? E quantos ainda restam na palma da minha mão? Ah, me socorre que hoje não quero fechar a porta com essa fome na boca... Chegue bem perto de mim. Me olhe , me toque, me diga qualquer coisa, ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada...
Recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa só existência. Amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida. Como uma ideologia, como uma geografia. Eu também não queria perguntar, pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão, mas não é, sei que não é, você também sabe, pelo menos por enquanto, talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que um silêncio basta. É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão. Só vou perguntar porque você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto. E esquece sabendo que está esquecendo...
Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondido e, de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo. Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura, da ternura frustrada a agressão, e da agressividade torna a surgir a solidão. Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam sempre sede no fim.
Andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais.
Quando morre alguém que você ama, você se dói inteira mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor, essa pessoa continua viva, há então uma morte anormal.
De todos aqueles dias seguintes, só guardei um gosto na boca: de lágrimas. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o seu cheiro, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o seu corpo e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos...
Não sei se deixo rolar. Vou olhar os caminhos: o que tiver mais no coração, eu sigo."

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