Acordei com uma ligação de Deus, tenso, querendo me encontrar para falar sobre seus planos para a Noruega e o País de Gales. Aquiesci, conformada e educadamente: não é sempre que Deus dá essas loucas, então eu posso levantar mais cedo hoje para dar essa moralzinha pr'o cara.
Coloquei um calção, engoli qualquer coisa e sai de casa. Cogitei levar um pedaço do bolo que papai fez ontem a noite, mas fiquei em dúvida: Deus ainda está de dieta? Domingo passado topei com ele descendo a Augusta virado da boêmia e cheirando a cerveja, com a camisa empapada de suor e restos de mocotó. Acabei por desistir da empreitada: enrolar o miúdo em papel laminado para ajeitar numa marmitinha acolchoada de papel toalha, do jeito que mamãe ensinou, levaria tempo e renderia reclamação e choramingo. Deus era um desses caras carentes, de natural amigueiro, um porre quando tomava sua indispensável cachacinha no final do expediente. Intolerante com atrasos, embora permissivo com atos muito piores dependendo apenas de quem o praticava. Alegre e falastrão, Deus era bom amigo mas não merecia a atenção do bolo de papai. Corri para pegar o metrô.
Desci do bonde na Sé e já deparei com um ajuntamento de passantes, misturados num burburinho. Brasileiro que sou, fui espiar o acontecido. Grande surpresa: tava lá Deus escaramuçado no asfalto, cercado por uma poça de sangue discreta porém máscula. O berro que me veio foi inumano, causou até um reinício de confusão entre os curiosos. Pouco ligando para as más línguas, precipitei em lágrimas desconsoladas sobre o divino tratante:
-- 'tá me devendo, filho da mãe! O desgraçado vai pro inferno sem me pagar, morreu pra me dar o calote, é coisa de gente da laia de Deus mesmo!
Engoli a custo minha revolta e, trabalhado no cuidado de não sujar chinelas com o sangue divino, abri espaço na multidão para chegar perto do corpo. Já vieram uns, muito proprietários do defunto, gritando para eu não encostar "que a assistência já tá vindo". Acho que miraram meus ares assassinos, pois calou num repente a meia dúzia de desajustados e um até me perguntou:
-- 'cê é amigo do coitado?
Pouco afeito a desgraças, ignorei os olhares e analisei o estado de Deus. Além da devolução do crédito tomado pelo vigarista, precisava arrumar um jeito de contar para Irene e as crianças que Deus tinha desencarnado em pleno Sábado de Aleluia. Deus era compadre de Irene pelo nome de Aroldinho: seria uma lamúria sem fim, feita para estragar feriado. Amaldiçoei o nome de Deus baixinho e me coloquei de cócoras, fitando o rosto-pra-sempre-colado-no-asfalto.
-- Já deu tempo de morrer, descansar e ressuscitar, agiliza isso aê! Vai ficar morto aí até que horas?
Silêncio de sepulcro. Acho que ouvi um início de galhofa, mas apenas acho. Deus permaneceu de cabeça baixa. Apoiei-o em meu ombro para que se erguesse e saí assoviando, confiante no mundo e nos homens:
-- E vam'bora apertar o passo, que eu ainda tenho que comprar uma lembrancinha de aniversário pra mamãe na Liberdade.
Coloquei um calção, engoli qualquer coisa e sai de casa. Cogitei levar um pedaço do bolo que papai fez ontem a noite, mas fiquei em dúvida: Deus ainda está de dieta? Domingo passado topei com ele descendo a Augusta virado da boêmia e cheirando a cerveja, com a camisa empapada de suor e restos de mocotó. Acabei por desistir da empreitada: enrolar o miúdo em papel laminado para ajeitar numa marmitinha acolchoada de papel toalha, do jeito que mamãe ensinou, levaria tempo e renderia reclamação e choramingo. Deus era um desses caras carentes, de natural amigueiro, um porre quando tomava sua indispensável cachacinha no final do expediente. Intolerante com atrasos, embora permissivo com atos muito piores dependendo apenas de quem o praticava. Alegre e falastrão, Deus era bom amigo mas não merecia a atenção do bolo de papai. Corri para pegar o metrô.
Desci do bonde na Sé e já deparei com um ajuntamento de passantes, misturados num burburinho. Brasileiro que sou, fui espiar o acontecido. Grande surpresa: tava lá Deus escaramuçado no asfalto, cercado por uma poça de sangue discreta porém máscula. O berro que me veio foi inumano, causou até um reinício de confusão entre os curiosos. Pouco ligando para as más línguas, precipitei em lágrimas desconsoladas sobre o divino tratante:
-- 'tá me devendo, filho da mãe! O desgraçado vai pro inferno sem me pagar, morreu pra me dar o calote, é coisa de gente da laia de Deus mesmo!
Engoli a custo minha revolta e, trabalhado no cuidado de não sujar chinelas com o sangue divino, abri espaço na multidão para chegar perto do corpo. Já vieram uns, muito proprietários do defunto, gritando para eu não encostar "que a assistência já tá vindo". Acho que miraram meus ares assassinos, pois calou num repente a meia dúzia de desajustados e um até me perguntou:
-- 'cê é amigo do coitado?
Pouco afeito a desgraças, ignorei os olhares e analisei o estado de Deus. Além da devolução do crédito tomado pelo vigarista, precisava arrumar um jeito de contar para Irene e as crianças que Deus tinha desencarnado em pleno Sábado de Aleluia. Deus era compadre de Irene pelo nome de Aroldinho: seria uma lamúria sem fim, feita para estragar feriado. Amaldiçoei o nome de Deus baixinho e me coloquei de cócoras, fitando o rosto-pra-sempre-colado-no-asfalto.
-- Já deu tempo de morrer, descansar e ressuscitar, agiliza isso aê! Vai ficar morto aí até que horas?
Silêncio de sepulcro. Acho que ouvi um início de galhofa, mas apenas acho. Deus permaneceu de cabeça baixa. Apoiei-o em meu ombro para que se erguesse e saí assoviando, confiante no mundo e nos homens:
-- E vam'bora apertar o passo, que eu ainda tenho que comprar uma lembrancinha de aniversário pra mamãe na Liberdade.
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